Santiago Andrade e os nossos hábitos de cada dia

Por Cezar Almeida

Sempre que possível, procuro aprender com o que ocorre em minha volta, mesmo que seja um fato tão trágico quanto foi a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade. É a vida que segue. Ele, o Santiago, morreu durante o exercício de sua profissão, consternou o país e recebeu muita atenção de todos os veículos de comunicação. Porém um ponto eu não tenho visto ser tratado pela mídia e formadores de opinião como deveria na cobertura do caso: a segurança do trabalho. Afinal de contas, Santiago estava exercendo a sua profissão na hora do incidente. Como anda a segurança do trabalho no Brasil?

 

Estudos mostram que nos últimos 15 anos os acidentes de trabalho tem crescido bastante no país, principalmente nas ultimas duas décadas. Para se ter uma ideia, dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que na média dos anos 2000 tivemos cerca de 500 mil acidentes por ano. Em 2010 e 2012 este número saltou para mais de 700 mil, um crescimento na casa dos 40%. Ai que bom seria se a nossa economia estivesse crescendo assim, mas este não é o caso. Os dados ainda são piores quando comparado a outros países. Assisti uma palestra recentemente em um evento da ABRH-BA – Associação Brasileira de Recursos Humanos, em que um especialista mostrou que o Brasil é o 4o país do mundo em acidentes de trabalho fatais. Segundo o engenheiro Gerson Sampaio, exercendo a sua profissão, só morre mais gente do que no Brasil em El Salvador, Coreia do Norte e India. Já fizemos parte dos BRICS, um acrônimo em referência ao grupo de países em desenvolvimento mais promissores da esfera econômica e geopolítica mundial (Brasil, Russia, India, China e Africa do Sul). Agora pelo visto entramos em um grupo menos glamoroso, os BECI, os países em que mais gente morre no trabalho. Mas não é meu propósito fazer deste texto um muro de lamentações.

 

No livro do jornalista americano Charles Duhigg chamado o Poder do Hábito, ele conta como Paul O’Neill, na época CEO da Alcoal (gigante mundial na produção de alumínio) transformou a empresa drasticamente, multiplicando o faturamento no período de sua gestão por oito vezes. Sabe qual foi o segredo de O’Neill: ele buscou insistentemente, desde o primeiro dia do seu mandato de mais de dez anos, transformar a Alcoa uma empresa segura para seus funcionários. “Eu sabia que precisava transformar a Alcoa”, afirmou O’Neill em entrevista a Duhigg, e ele escolheu a segurança do trabalho como um hábito angular, um hábito que se mudado traz junto vários outros a reboque. Ele sabia que se incorporasse uma atitude segura no trabalho, as pessoas mudariam outros hábitos e, consequentemente, toda a companhia. Ele conseguiu.

 

Das mudanças que podemos fazer no Brasil, esta talvez é que está mais a mão de todos aqueles que trabalham. Não importa o tamanho da organização, todos podem e devem contribuir fortemente para tornar o seu ambiente de trabalho mais seguro, cuidando de si e dos outros. É uma postura que gera saúde e também lucro, um círculo virtuoso inaugurado por uma mudança em que todos tem a ganhar. Santiago se foi, e que vá em paz, mas a sua tragédia pode servir para salvar muitas vidas se assim enxergarmos. Pois que ele não tenha ido em vão, pelo menos para eu e você.