A Tempestade Sempre Passa

Confira meu artigo publicado no Jornal Correio*, edição de 1 de janeiro de 2017.

 

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A Tempestade Sempre Passa

Durante a travessia de cem dias que fez da África para o Brasil em um pequeno barco a remo, o navegador Amyr Klink passou por vários momentos de mau tempo. Um deles foi uma tempestade que durou sete dias ininterruptos e sobre esses dias o navegador brasileiro resumiu em: “Não passei naqueles sete dias por um momento sequer de monotonia, tristeza ou desespero. Pois nada é mais certo do que a chegada do bom tempo após uma tempestade que parece interminável”.

O momento que estamos vivendo no Brasil, de muita instabilidade política e crise econômica, tem parecido com uma tempestade interminável. De tão repetidos por todos os programas de retrospectivas e opiniões sobre o ano que você já deve ter visto, ouvido ou lido, eu vou pular esta parte de citar os principais acontecimentos de 2016 que compõem este roteiro, às vezes até parecido com um filme de Tarantino. Quero partir para falar do que eu espero do futuro porque, com a mais absoluta certeza que Amyr Klink tinha que aquela tempestade de sete dias em alto-mar iria passar, a nossa crise econômica e política também vai passar e nós voltaremos, em breve, a ter dias melhores.

Quando eu fui perguntado sobre minhas previsões para 2017 para o trabalho e a renda das pessoas no Brasil, de pronto uma imagem muito positiva veio a minha cabeça. Mesmo para os meus padrões de um otimista convicto, eu achei que eu poderia estar exagerando e me propus a investigar por que eu tinha tanta convicção que o ano que vem será tão melhor que 2016, principalmente na geração de emprego. Apesar de toda crise, o meu ano pessoal foi muito bom e fiquei preocupado se a minha situação particular não estava influenciando a minha capacidade de análise. Fui fazer um balanço de minhas convicções e foi fácil constatar o primeiro argumento: estamos em ciclo econômico de queda e os ciclos são fases de alta e de baixa que se repetem de tempos em tempos. Inclusive, neste quesito, nós tivemos a dupla 2015 e 2016 como os únicos dois anos consecutivos de queda do PIB na história do Brasil, um fato negativo, histórico e inédito. Assim, como é um ciclo, é de se esperar que tenhamos uma recuperação da economia ou que, pelo menos, ela pare de cair no próximo ano, não por esperança, mas simplesmente por conta desta queda acentuada que tivemos e de uma base que se tornou muito baixa.

Um outro aspecto que investiguei foi o comportamento de alguns indicadores nestes ciclos e, dentre os principais, destaco a inflação, os juros e o desemprego. No início da crise econômica, normalmente o primeiro indicador que desponta é a inflação, que entra em movimento de alta. Com ela, naturalmente, os juros sobem para recompor as perdas do poder aquisitivo e os riscos, que são maiores em um ambiente inflacionário. O último indicador que se apresenta no início da crise é o desemprego, este só aumenta quando de fato é provado que estamos em movimento descendente. A nossa inflação apresentou uma tendência de alta deste janeiro de 2014, enquanto o desemprego somente começou de fato a crescer um ano depois. O que acontece quando o ciclo de baixa encerra e começamos a subir? Justamente o contrário e é o que estamos vendo agora: há alguns meses que já temos a inflação e os juros caindo, porém o desemprego ainda não respondeu. Isso implica que nos próximos meses, muito provavelmente, o nível de desemprego deverá estabilizar e começar a cair. Muitos analistas apostam que esta retomada se dará somente em 2018, mas eu acredito que teremos boas notícias ainda no decorrer do ano que vem. A tempestade quando passa pode vir seguida de um dia de céu nublado ou de céu azul. Eu acho que o sol vai começar a brilhar rápido.

No seu relato sobre a experiência de passar cem dias de navegação solitária no oceano atlântico, Amyr Klink resumiu: “Um tempo em que aprendi a entender as coisas do mar, a conversar com as grandes ondas e não discuti com o mau tempo”. Estes dois últimos anos foram difíceis, com fechamento de vagas e aumento do desemprego. Mas eu gostaria de lembrar que, apesar de 2016 ter sido tão ruim, dados do Ministério do Trabalho indicam que cerca de 15 milhões de pessoas foram admitidas neste ano, tiveram suas carteiras assinadas, inclusive, pela primeira vez. Número muito menor do que vínhamos experimentando acima da casa dos 20 milhões nos anos anteriores, mas ainda assim são 15 milhões de pessoas que não discutiram com a crise e conseguiram um trabalho. Ano que vem este número poderá ser não só de 15 milhões e esperamos que novas vagas sejam criadas e empresas voltem a contratar. Acredito que o tempo será melhor e o que nos cabe fazer é arregaçar as mangas e fazer nossa parte. Com onda ou sem onda, é preciso coragem e confiança e continuar remando porque a única certeza que temos é que a tempestade sempre passa.

Cezar Almeida – economista, professor e presidente da ABRH Bahia

Jornal Correio – 1 de janeiro de 2017

3 comentários sobre “A Tempestade Sempre Passa

  1. Perfeita a análise do ponto de vista econômico. Pode-se acrescentar pelo vies histórico que estes cicloa ocorrem com mais frequência no Brasil. Na minha opinião por causa da nossa frágil estrutura administrativa.

    Parabéns ao autor

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  2. Parabéns Cezar.
    Eu acredito! A tempestade sempre passa, principalmente para aqueles que durante aproveitou para se tornar mais forte.

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  3. Excelente artigo Cezar, parabéns. Eu, ao contrário do Cezar, não sou um otimista convicto mas por incrível que pareça estou otimista com 2017. O setor privado já fez um forte ajuste e o setor publico está a faze-lo e a tendência é de acelerar o ritmo em 2017 (por extrema e absoluta necessidade). Com contas publicas a caminho do ajuste, inflação controlada, juros mais baixos, câmbio num patamar que permite bons saldos da balança comercial, empresas publicas mais bem geridas e empresas privadas mais enxutas as expectativas são de sólida melhora. Mesmo com alguns solavancos na parte politica.

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