Pare de procurar o seu propósito

Estava em um jantar e comentei que iria viajar de férias com minha esposa para uma cidade que ainda não conhecíamos. De bate pronto, uma pessoa que tinha ido apenas uma vez ao meu destino, citou uma atração específica e após falar um pouco a respeito soltou uma frase que você já deve ter escutado: – Você tem que conhecer, senão você não foi lá! Eu respirei fundo, falei para mim mesmo mentalmente “tudo bem, não vale a pena responder” e sorri, balançando a cabeça para cima e para baixo, com aquela cara de indigestão que eu fico quando tomo sorvete e esqueço do meu comprimido de lactase. 😏
Alguém acreditar que você tem que ir em determinada atração local caso contrário você não foi ao lugar é para mim de um reducionismo ignorante que só mostra o qual estreita é a visão de mundo de quem profere estas palavras. É óbvio que muitas vezes dizemos isso como força de expressão, mas tem gente por aí que acredita mesmo nesta visão, que um lugar se resume a uma coisa, como se o que aquela pessoa valoriza e gosta serve para mim, para você e para todos os outros bilhões de habitantes da terra. Como se um país inteiro se resuma a um monumento, como se os mistérios de uma cidade sejam totalmente revelados em uma ida a um restaurante. Nova York é muito mais que a Estátua da Liberdade ou a Times Square, assim como Salvador é muito mais que o Pelourinho ou o Farol da Barra. É bacana conhecer estes lugares, se possível vá lá, mas você não pode afirmar que conheceu São Paulo se foi apenas na Avenida Paulista nem muito menos a Champs Elysee resume Paris. Estas cidades são muito mais que isso, começando pelos milhões de habitantes que vivem nela.
Cada um desse habitantes pode te mostrar uma perspectiva totalmente diferente desses lugares. São vidas cheias de decisões acumuladas que tornaram aquele indivíduo único, diferente de todos os os demais. Alguns são verdadeiras joias raras, com sabedoria acumulada para fazer inveja aos filósofos gregos, apesar de eventualmente não possuirem o conhecimento formal que as tornaria autoridade. Infelizmente a sabedoria é confundida com intelectualidade, o que é um erro, a sabedoria é muito mais. E da mesma forma que tem gente que acha que pode resumir uma cidade a um ida a um restaurante, tem gente por aí que acredita ter a fórmula para uma boa vida, plena e feliz, presumindo que um único caminho pode servir para todos os bilhões de moradores da Terra. Acreditam poder resumir uma vida a princípios, valores e uma metodologia definitiva. 
Um grupo que compartilha desta crença tomou força recentemente: são os defensores da busca pelo propósito. Dizem que sem um propósito  de vida claro você se dará mal. Bradam aos quatro cantos: “uma vida sem propósito não é uma vida, é nada!”. A minha reação é responder com aquele mesmo sorriso que você já sabe qual é😏. De uns anos para cá isso foi ficando mais forte e muitas pessoas passaram a fazer da busca pelo propósito, meio que uma obsessão, uma doutrina, quase uma religião. Surgiram todo tipo de conteúdo, formação e gurus para ajudar as pessoas a encontrarem o seu propósito de vida. Passou a ser uma exigência, algo que você tem que ter e toda vez que isso acontece ou quando algo conceito fica muito na moda, eu normalmente costumo ficar cético, desconfiado e intrigado, do mesmo jeito que fico com as atrações de uma cidade como já comentei. Esta talvez seja a minha forma de manter o senso crítico em alerta e também um defeito por conhecer que funciono assim e ainda preservo este preconceito. É difícil mudar, eu sei.
Acredito que ter propósito, agir com significado, saber a razão da existência é algo que é bacana de se ter e trás muitos benefícios: dá sentido e direção às nossas ações, alinhando o nosso cotidiano com algo maior. Isso gera muita motivação, engajamento e paixão. Sim, é muito bom ter um propósito de vida claro. Mas também é preciso um aprofundamento a respeito do tema para não nos tornarmos malucos com disso, caso contrário a busca pelo propósito passa ser mais uma exigência da vida moderna, mais uma que temos que cumprir e adicionar à lista de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.
Exigências na vida são perigosas, porque estabelecem condições e condições são uma cilada para más decisões, além de deixarem a porta escancarada para o sofrimento. Eu não tenho filhos, ainda não escrevi um livro e nem plantei um árvore e não estou nem aí para isso. Podemos escrever livros, ter filhos, plantar uma floresta inteira e ter um propósito, tudo isso pode tornar a nossa vida mais completa, mas não pode ser condição para tal. A questão é que eu não podemos estabelecer essas coisas como um encargo para se viver bem e ser feliz. Quem disse que alguém pode dizer a mim ou a você o que faz a vida valer a pena?
Então, já que não tem uma fórmula, o que estão nos resta fazer neste intervalo chamado vida, que compreende o dia que nascemos até o dia que morremos? É importante entender primeiro justamento que a vida não é o oposto da morte e sim o nascimento é o oposto da morte. A vida é o que acontece no intervalo entre o nascimento e a morte. É a experiência, é cada dia por aqui fazendo o que a gente faz, sentindo o que a gente sente, sendo o que a gente é. Mas a gente é o que mesmo? 
Talvez esta pergunta seja um importante ponto de reflexão para tornar esta experiencia o mais plena possível. Afinal, quem somos nós? “Conhece a ti mesmo” pode ser um bom caminho de se ir vivendo, deixando de lado as exigências de ter que fazer isso ou aquilo. Mas aí a coisa pode ficar pior porque saber quem eu sou pode tornar-se mais uma exigência adicionada à minha lista, que agora já tem cinco itens.
Sabe de uma, caso você, como muitos de nós, ainda não encontrou o seu propósito e nem muito menos se conhece, desencane com isso e vá viver. A vida já é uma dádiva, então viva cada presente deste presente que é existir. Nesse meio do caminho, tenta se conhecer um pouquinho se puder, tente aprofundar cada vez mais no entendimento e revelação para si mesmo de quem é você. É um processo lindo, às vezes doloroso, mas como uma casca de cebola, cada descoberta revela uma nova a ser feita. E nem que isso dure a vida toda, correndo o risco de que você poderá ou não encontrar o seu propósito, talvez faça a vida valer a pena.
Eu sonho muito, faço planos, estabeleço metas, tenho uma visão e um propósito para minha vida, mas nada disso existe sem ação e viver requer ação. Ação de execução, ação de reflexão, ação de sentir a emoção, ação da não ação – ficar parado contemplando o presente, sem saber o significado e o propósito de nada, apenas sendo e existindo.
Vamos para de ser preocupar em cumprir exigências impostas que prometem mais felicidade, mas que no final o que entregam é mais ansiedade e estresse. Vamos viver a vida. Como diz a frase do Sadhguru: “As pessoas que estão transbordado de vida não precisam de um propósito para viver. A vida é um propósito em si mesma”. E já que a música de Marcelo Falcão recomenda “viver é melhor que sonhar”, então viva. É isso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s